O pontificado de Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, que faleceu nesta segunda-feira (21) aos 88 anos, consolidou-se como um período de transição na história recente da Igreja Católica. Primeiro pontífice vindo da América Latina e jesuíta a ocupar o cargo, ele comandou a Santa Sé por 12 anos e enfrentou temas sensíveis com um estilo pastoral, muitas vezes mais simbólico do que doutrinário.
Filho de imigrantes italianos e natural de Buenos Aires, Francisco iniciou sua trajetória acadêmica nas Ciências Químicas e no ensino de Literatura, antes de optar pela formação religiosa. Apesar de relatar ter aceitado com relutância a eleição ao papado, foi alçado à liderança da Igreja em um momento de desgaste institucional — marcado por escândalos de abuso sexual e pela renúncia inédita de Bento XVI.
Ao assumir o pontificado, escolheu o nome de Francisco em homenagem a São Francisco de Assis, referência que sinalizou desde o início sua prioridade pelo cuidado com os pobres. Seu lema, Miserando atque eligendo (“Olhou-o com misericórdia e o escolheu”), resumia a proposta de um papado voltado à compaixão e à escuta.
A postura de Francisco contrastou com a rigidez institucional de seus antecessores. Ao adotar um tom mais próximo, dispensar símbolos de poder e promover discursos acessíveis, buscou dar um novo tom à relação entre Igreja e fiéis. No entanto, ao tratar de temas centrais da doutrina, manteve limites claros. Não reviu a proibição à ordenação de mulheres nem autorizou o casamento de padres. No campo moral, manteve firme oposição ao aborto.
Ainda assim, o papa avançou em frentes antes pouco exploradas. Incentivou a participação feminina em espaços de decisão — como no Sínodo dos Bispos —, autorizou bênçãos a casais homoafetivos e promoveu o acolhimento de fiéis em “situações irregulares”. Um dos gestos mais simbólicos de seu pontificado foi o convite a um homem transexual para visita oficial ao Vaticano.
Nos campos político e diplomático, Francisco não se furtou a manifestar posições públicas. Criticou lideranças envolvidas em conflitos, como os chefes de Estado da Rússia e de Israel, e cobrou da União Europeia respostas mais efetivas à crise migratória. Em 2020, protagonizou uma imagem histórica ao rezar sozinho na Praça São Pedro, então vazia por conta da pandemia da Covid-19.
Internamente, conduziu reformas administrativas na Cúria Romana, com foco na transparência financeira e no combate a desvios. Dando continuidade a medidas iniciadas por Bento XVI, trabalhou para o fechamento de contas suspeitas no banco do Vaticano, alvo de acusações de lavagem de dinheiro.
Apesar de pressões internas, especialmente por parte de alas ultraconservadoras que o consideravam liberal demais, Francisco manteve estabilidade institucional e apoio de grande parte dos fiéis — inclusive entre setores mais distantes da Igreja.
Mesmo diante de problemas de saúde e limitações físicas crescentes, recusou-se a considerar a renúncia, afirmando que pretendia seguir no cargo enquanto tivesse condições.
Francisco encerra sua passagem pelo papado com o reconhecimento de ter reposicionado a Igreja diante de parte da sociedade contemporânea, sem, no entanto, promover alterações profundas na estrutura doutrinária. Seu legado, mais pastoral do que normativo, ficará marcado por uma tentativa de abrir espaço para o diálogo, a escuta e a compaixão.
