Campo de concentração dos flagelados de Senador Pompeu, anterior aos do nazismo, será tombado

Casarão do Campo de concentração dos flagelados de Senador Pompeu (foto: agência Brasil)

O sítio arquitetônico do “Campo de Concentração do Patu”, localizado em Senador Pompeu, será tombado no próximo dia 20, como resultado de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre o Ministério Público do Ceará (MPCE) e a Prefeitura. O equipamento é composto por uma barragem, um cemitério e a chamada “Vila dos Ingleses” e será tombado em prol da preservação do patrimônio histórico-cultural de Senador Pompeu.

A cerimônia de assinatura terá a presença do promotor de Justiça Geraldo Nunes Laprovitera Teixeira, que protocolou o TAC, e do titular da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult), Fabiano Piúba. O campo de concentração ocupa um terreno do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs), em uma área de 16 hectares. O plano da Prefeitura é lançar um projeto para restaurar a construção, uma vez em que o patrimônio se encontra em ruínas. Segundo o prefeito, a ideia é torná-lo em um centro turístico da região.

Conforme o relatório do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a área foi utilizada para instalação de um campo de concentração em 1932. Na época, os retirantes que iam para Fortaleza para fugir da seca tinham o risco de ficarem retidos no lugar.

De acordo com a TAC, ainda existem sobreviventes no local e, dos setes campos de concentração do estado, este foi o segundo maior, com uma população de 20 mil pessoas.

O promotor de Justiça informa que um inquérito civil público e um relatório técnico foram realizados pelo MPCE em 2017 e, na ocasião, foi concluído que o tombamento da construção é benéfico para a defesa da cultura e da história cearenses. Dessa maneira, o conjunto arquitetônico será o primeiro campo de concentração a ser tombado no Ceará.

A Folha de S. Paulo fez a seguinte reportagem sobre o assunto:

 O confinamento é de 1932. Um ano depois os nazistas criariam sua primeira versão dessa modalidade de carceragem que assombraria o mundo ao permitir o assassinato sistemático de 6 milhões de judeus: uma fábrica reestruturada no sudeste alemão para enclausurar prisioneiros políticos de Adolf Hitler.

Pouco mais de um mês após a abertura de campos em seis cidades cearenses (Crato, Ipu, Quixeramobim, Cariús, Fortaleza e Senador Pompeu), havia, segundo dados oficiais, 73.918 detidos —16.221 dos quais estavam em Senado Pompeu. Na capital, os dois currais de pobreza instalados chegaram a atrair curiosos, tal qual uma atração turística.

A nomenclatura era usada no Brasil havia anos. Em “O Quinze” (1930), clássico sobre a seca de 1915 no Nordeste, Rachel de Queiroz empregou-a ao descrever como a heroína Conceição “atravessava muito depressa o campo de concentração” e tratava de acelerar o passo, “fugindo da promiscuidade e do mau cheiro do acampamento”.

Em Senador Pompeu, 12 casarões e três casas de pólvora serviram de prisão temporária para nordestinos que viam em Fortaleza uma salvação para a nova grande estiagem. O posicionamento dos campos eram estratégicos: próximos a estações de trem. “Dali as autoridades retiravam os clandestinos”, conta o prefeito Pinheiro.

Parte deles era convertida em mão de obra forçada e apartada de uma elite fortalezense com horror à indigência. Nove anos antes, o jornal “O Nordeste” anunciara o 17 de fevereiro de 1923 como o Dia da Extinção da Mendicância.

Ser mendigo, dali em diante, tornou-se ilegal, e, caso alguém fosse pego nessa situação de “graves perigos de ordem moral”, seria encaminhado ao Dispensário dos Pobres, sob comando da Liga das Senhoras Católicas Brasileiras.

“Toda noite morriam de 20 a 30 trabalhadores. Pela manhã, eram enterrados em vala comum. Como o nosso povo é religioso, ficou um sentimento de culpa pela dor e pelo abandono aos quais foram sujeitados aquela gente pobre. Tempos depois foi realizada uma procissão pela Igreja Católica em favor de suas almas”, diz o advogado José Maria Saraiva Nogueira Júnior, um dos pompeuenses que postula a preservação do patrimônio histórico-cultural.