Coluna Amadeu Filho: Almir da Sorveteria – há quase 50 anos é considerado o rei dos picolés, em Quixadá

José Almir Pereira da Silva trabalha na sorveteria há 42 anos (foto: Amadeu Filho)

Ali pela metade dos anos 60 (século passado) um menino muito esperto se aproximou do balcão da icônica sorveteria do Nivaldo e pediu ao bondoso Paisinho(Francisco Paes de Oliveira) que lhe desse um picolé quebrado (aqueles que não servem para ser vendidos) e ouviu dele: “Vou lhe dar um de verdade, dos bons da casa e você irá entregar umas compras lá em casa. Feliz como toda criança parece sempre estar cumpriu com ar de gente grande aquela missão que lhe fora confiada. E assim, todos os dias o garoto executava esta tarefa e agora já atendendo outras pessoas da família como o Senhor Nivaldo que lhe confiou a entrega de bolos, uma das especialidades daquele tradicional comércio. Nivaldo logo percebeu nele uma vontade enorme de trabalhar e ajudar em casa.

Mesmo ainda um garoto queria ajudar em casa pois seu pai abandonou a família e sua querida mãe teve enorme dificuldades no sustento das crianças. Depois de algum tempo, Nivaldo chegou para ele e lhe deu a notícia de que iria trabalhar na lanchonete. O menino José Almir Pereira da Silva ficou muito feliz e falava para os seus amigos das horas das brincadeiras: “Agora vou ajudar minha mãe Feliciana, ela e meus irmãos! Tudo que ganhar é para eles” Era o ano de 1972 e a sorveteria do Nivaldo já fazia enorme sucesso, sendo frequentada pelas famílias quixadaenses não importando classe social. Foi a partir do ano de 1966 que o frequentado ponto comercial iniciou suas atividades.

Significa então dizer que o Almir ali trabalha há exatos 42 anos. Começou atendendo no balcão mas em pouco tempo, foi aprendendo a preparar os picolés e sorvetes tendo como professores o Coã, André e Hélio que lhe repassaram os segredos do preparo daqueles produtos. Depois de alguns anos, o Almir passou a executar as tarefas sozinho e cada vez mais conquistando a confiança dos proprietários. Chamava a atenção o sabor, o gosto que o Almir conferia aos picolés. Como sempre lembra o professor Davi, até hoje não se sabe o segredo daquele sabor especial. Dizem(Almir não confirma) que a fórmula usada no preparo só é do conhecimento de 3 pessoas. Verdade ou não, o certo é que até os dias de hoje aquele espaço é bastante frequentado, seja por filhos da terra dos monólitos ou de outras localidades. Por fim, sabemos que o calor é persistente na bela Quixadá e então, sorvetes, picolés sempre foram bastante consumidos.

Quando Almir iniciou seu trabalho, a sorveteria vivia o que podemos chamar de embriaguez do sucesso. Depois do expediente de trabalho, era tempo de curtir os saborosos picolés acompanhado de uma boa conversa nas dependências daquele espaço que não era apenas comercial mas também um encontro de amigos e de jovens enamorados. Ali, foram gastas a mocidade de muita gente que se divertia e ficava feliz ao ser atendida pelo bondoso Geraldo, o dedicado Nivaldo, o novato Almir e toda a equipe. Estávamos nos inesquecíveis anos 70 e aquela sorveteria era frequentada até pelas autoridades do município.

Vereadores como Adauto Lino, Francisco Brito, Agenor Magalhães, Raimundo Nobre, Geraldo Alves, Zilcar Holanda, Samuel  e outros conversavam sobre os problemas da cidade mas sem deixar de elogiar os gostosos picolés que pareciam ter sido preparados no céu. Bom lembrar que naqueles anos foi inaugurada a nossa rodoviária e ao término das festividades, deu-se quase uma invasão a sorveteria com muita gente lanchando ou curtindo os já consagrados picolés.

Naquele tempo na nossa bela Quixadá havia um campeonato interdistrital que movimentou os desportistas locais. As equipes vencedoras foram Rinaré e Custódio e logo depois do jogo final no estádio municipal, atletas e torcidas foram comemorar no popular espaço. Na atualidade, mesmo com o crescimento enorme de nossa atividade comercial, a sorveteria do Nivaldo continua na crista da onda.

Fred Capistrano(novo administrador) e Almir

Hoje no comando está Fred Capistrano que faz questão de manter o mesmo padrão de qualidade.  O segredo para esta longevidade muitos creditam aos picolés preparados pelo Almir e durante algum tempo corria o boato pela cidade que aquelas barrinhas de gelo davam muita sorte no amor o que certamente fez com que muitos enamorados frequentassem aquele aprazível local. Almir ri muito quando se fala nesta possibilidade e garante que o grande diferencial é a seriedade no trabalho, a forma como são preparados. Tem doces recordações de quando entregava os picolés para aqueles trabalhadores, sempre honestos, que saiam naqueles bonitos carrinhos e vendendo picolés por toda a cidade. Lembra de alguns como Humberto, João Mendes, Ceará, Zé Augusto, Manezinho do Combate, Palaca, Dedé, Zé Picolezeiro e muitos outros. Quando os carrinhos saíam pela cidade famílias abriam as portas e as crianças sempre traziam uma bacia na esperança que algum adulto pagasse a conta.

Almir lembra que alguns faziam uso de uma buzina para atrair compradores e muitos usavam a própria voz e com pose de tenores quase gritavam: “Chegou o rei do picoléééééé!!!” Nos dias de hoje, a presença destes trabalhadores é em pequeno número e Almir faz questão de lembrar que na atualidade até nas farmácias são vendidos esses produtos. Mas as maravilhosas barrinhas geladas continuam a ser consumidas por crianças e adultos. Este dedicado profissional lembra de alguns acontecimentos no exercício da profissão como um incêndio que aconteceu no Mercantil Cícero Bezerra vizinho a lanchonete no ano de 1984. Como era um dia de domingo e o mercantil se encontrava fechado, Almir e seus colegas de trabalho tiveram que abrir as portas daquele estabelecimento comercial de qualquer jeito para apagar aquele fogo que poderia ter causado sérios problemas na vizinhança.

Saborear picolés preparados pelo Almir é lembrar da nossa feliz infância naquele Quixadá que não esquecemos quando andávamos descalços, pulando e brincando sem se importar com as cobranças que os relógios fazem sobre os adultos. É lembrar dos passeios até o Cedro, pegando mangas espalhadas pelo chão e ficar com medo olhando para aquele monstrinho chamado “Marchambomba” que deixaram fora da estrada, na verdade, uma carreta com rodas de ferro, movida a vapor que transportava material para a construção do majestoso açude do Cedro.

Nivaldo foi o responsável pela presença do Almir na famosa sorveteria

Os que hoje moram distante de sua querida terra natal ainda guardam na boca o gosto daquelas barrinhas de gelo preparadas pelo dedicado trabalhador. Nos seus 42 anos de batente, Almir não amealhou bens materiais mas pode sentir o carinho e respeito que as pessoas devotam a sua pessoa pois, certamente, personifica na sua vida simples o caráter, a honestidade. Tanto tempo de trabalho, nenhum deslize e só faltando quando a saúde não permitia que exercesse suas atividades. Arrisco perguntar se apenas os que têm mais podem se considerar verdadeiramente ricos? Talvez, nesta sociedade que exalta mais o “ter” do que propriamente as virtudes do homem simples e correto, isto realmente funcione. No entanto, mais feliz que os outros, acho que não. Feliz mesmo é quem pode desfrutar das colheitas semeadas com muito esforço.

Poderia afirmar mesmo sem entender nada de psicologia que o nosso amigo Almir vive o que podemos chamar de alegria sincera, ou seja, ser feliz com o pouco que tem. Não merece nosso aplauso um profissional que só vive para o trabalho e executando as tarefas com total dedicação e honestidade? Almir na sua bondade e simplicidade nem imagina o grande valor que tem. Ele é um símbolo da cidade, na verdade, assumindo a condição de um tipo popular que até divulga a aterra dos monólitos. Afinal, não é difícil um visitante perguntar: “Onde se saboreiam os picolés preparados pelo senhor Almir?” Ele nos mostrou que enfrentar os desafios da vida requer coragem, determinação, enfrentamento dos mais diversos problemas.

Já passou o tempo de homenagearmos este profissional que no duelo “Dinheiro X Valores Morais” fez vencedor a segunda hipótese. Essas pessoas nos conseguem fazer um bem inexplicável pelo jeito como vivem e nos fazem sorrir. Que graça teria nossa vida sem convivermos com estas pessoas maravilhosas? Almir só plantou o bem e por isso colhe todo este carinho dos seus irmãos quixadaenses. Gosta de ser solidário dentro de suas possibilidades. Só não lhe peçamos para contar o segredo do preparo dos seus apreciados picolés. Isto, ele não conta para ninguém! Os brechadores de minha coluna podem ter certeza de uma coisa: Estamos valorizando uma pessoa certa! O Almir realmente merece os aplausos de todos nós!

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Autor

Amadeu Filho
Colaborador da RC
Colunista
Radialista Profissional