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Por que a morte de crianças, como a menina Laurinha em Quixeramobim, causa tanta comoção?

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De tempos em tempos somos tomados por uma forte comoção com acontecimentos envolvendo a morte de crianças. Foi assim em 1993 quando o Ceará registrou o assassinato de três crianças no caso que ficou conhecido como “chacina do Pantanal”, em Fortaleza. Em 2008 um clamor ganhou proporção nacional com a repercussão do caso Isabela Nardoni, de apenas 5 anos, morta ao ser jogada de um prédio pelo pai e a madrasta.

Esse mesmo sentimento é vivido desde a última quarta-feira (24) em Quixeramobim. O município mergulhou e permanece em profunda tristeza e luto pela morte da garotinha Isabela, de apenas dez anos, após mais de uma semana em um leito de UTI em Fortaleza. Da notícia do falecimento emergiu um sentimento de tristeza coletiva com milhares de outras pessoas acolhendo a dor da família. Mas, afinal, porque o luto pela morte de crianças é tão impactante?

A psicóloga da saúde e professora do Centro Universitário Católica de Quixadá (Unicatólica), Anice Holanda Maia, analisa que o sentido de infância passou a ser visto como uma fase a ser cuidada, e não interrompida. “Internalizamos que crianças são seres que tem o futuro pela frente. A morte de uma criança desestrutura essa representação, faz a gente se confrontar com o drama de uma vida inteira a ser vivida que foi dilacerada”.

Isabela Nordoni: caso chocou o Brasil em 2008

A infância e a criança nos remete a refletir sobre uma vida inteira a ser vivida: crescer, estudar, trabalhar, ter filhos. “A morte como finalização de todas essas probabilidades, comove e nos arranca da expectativa de futuro”, completa Anice. A justificativa encontra sentido na cronologia da vida: se o natural e esperado é morrer somente quando estivermos velhos, ver crianças morrerem seria antinarual. “Temos a ideia de que os filhos viverão além dos pais e que pais nunca deveriam sepultar um filho”, pontua a psicóloga.

Pesar e culpa
Tradicionalmente os estudos sobre o luto costumam elencar cinco fases a ser atravessada pelos familiares dos parentes mortos: negação, raiva, barganha, tristeza profunda e aceitação. Mas quando o morto é uma criança esse sentimento parece ser mais complexo. “Estamos falando de uma família onde a criança é parte de um sistema de relações e afetos. Ao morrer uma criança, morre também o planejamento e sonhos que estavam sendo construídos”.

Por vezes, os pais carregam um sentimento de culpa que intensifica o sofrer no processo de luto. “Pais e mães imaginam que têm poderes para evitar o pior aos seus filhos, e se sentem como tendo errado quando ocorre um fato drástico”, explica Anice Holanda. A observação profissional e pesquisadora se baseia nas mais de duas décadas em que atuou como psicóloga do serviço de oncologia pediátrica do Hospital Albert Sabin. “Mesmo que não exista uma falha dos pais, mas a culpa está lá de modo não racional”.

Psicólogae professora da Unicatólica, Anice Holanda: ‘O luto é um processo’.

Tudo deve passar
A psicologia encara o luto como um sentimento esperado diante do rompimento de laços afetivos. Anice Holanda destaca: “É um processo, não uma doença”. E mesmo que carregue o potencial de provocar impactos físicos, psíquicos e sociais, a tendência é que, aos poucos, o enlutado retome o ritmo habitual. “O início é sempre mais intenso e com o passar do tempo é possível uma elaboração do viver. A pessoa, mesmo triste, vai retornando aos seus afazeres e rotina”, completa.

Esta retomada também é esperada, por isso quando ela não acontece o luto pode se tornar um processo complicado e patológico. “Quando há questões como distúrbios do sono, da alimentação, perda de peso, depressão, por exemplo, é recomendável receber apoio profissional”, alerta a professora da Unicatólica.

O suporte advindo da fé também surte efeitos positivos. Grupos espirituais e religiosos ajudam a dar sentido às situações de desamparo, como no caso da morte de uma criança. “Funcionam como fatores de proteção, acolhendo a pessoa enlutada e aceitando sem críticas nem julgamento. Ao fazer parte de um grupo dessa natureza, o enlutado sente que não está só”, complementa Anice.

Há um consenso natural que filhos, sejam eles crianças ou já adultos, uma vez que se vão nunca serão substituídos. Aos outros que podem chegar, encontram a mesma oferta de cuidado e amor, mas o lugar de quem se foi permanece inesquecível, literalmente. Assim, a vida vai se resignificando e o luto enquanto um processo a ser atravessado mas superado, vai dando espaço a novas formas de encarar a vida. Comove, impacta, dói, mas passa. Afinal, a morte é uma verdade inescapável a cada um de nós.

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