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Vivendo sob o imprevisível: Milhã está à mercê de um colapso hídrico, dois anos após enchente

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Açude Jatobá, de Milhã, em imagem de arquivo (Foto: Deivy Viana)

Região Central: Como prever o clima e o tempo, para saber o que poderá acontecer, se ele muda tão repentinamente? Milhã, município do Sertão Central é, atualmente, o mais nítido exemplo desta metáfora. O tempo no município mudou tanto que em uma fração de apenas dois anos, transformou uma cidade antes aterrorizada pelo drama de enchentes, como um município à beira do colapso de abastecimento.

Você deve lembrar: em 2023 as chuvas que caíram em Milhã foram torrenciais. Mais de 40 açudes arrombaram, regiões ficaram ilhadas a ponto de famílias terem de ser resgatadas por helicóptero. A água subiu a ponto de invadir casas e molhar as paredes para acima de um metro e meio.

LEIA TAMBÉM: O drama de Milhã: 42 açudes já arrombaram e chuvas transformaram esperança em pesadelo

Os olhos que derramavam lágrimas de quem se via perdendo tudo, eram os mesmos que assistiam àquilo com perplexidade. Foi difícil de entende o que aconteceu em Milhã naquele ano porque na história do Ceará só em 74, na cheia do Quixeramobim, e na década de 60, no Orós, se viu casos de açudes encherem tanto a ponto de inundarem a cidade. Ou seja, era um cenário inimaginável.

Corta para 2025: este mesmo município está hoje à beira de um colapso. O açude que encheu tanto a ponto de provocar um cenário de destruição, é hoje o mesmo que está seco. Mas tão seco, a ponto de causar outro tipo de pânico nos moradores: o de ficarem sem água.

Em 2023 açude encheu a ponto de transbordar (Foto: arquivo/Prefeito Alan Macedo)

É como uma ironia do destino: se antes havia água em abundância, hoje, a água falta. O temor de 2023 se repete, mas agora em um outro extremo: se naquele ano o medo era por muita água, agora é pela falta dela. E tudo isso num intervalo de dois anos apenas. Pode parecer muito, mas verificando o quão radical foi a alteração desse cenário, se conclui que é um tempo pequeno para uma mudança tão significativa.

Milhã está vivendo um racionamento que impõe um rodízio aos moradores: a cada dia de água nas torneiras, outros cinco são sem água. Já há um planejamento em curso pelos órgãos competentes, para que a cidade tenha outros meios de abastecimento, como o uso de carros-pipa e a execução do Malha D’Água. O projeto é o fio de esperança que resta aos moradores, e vai levar água do açude Banabuiú para aquele município, entre outros, por meio de uma adutora.

O uso racional de água é sempre uma proposta adequada. A população precisa usar com consciência para não faltar. Mas o caso de Milhã é outro: o açude Jatobá, que abastece o município, é pequeno. Com a mesma rapidez que ele enche, ele seca, uma situação que sempre deixou a população refém de uma imprevisibilidade.

Saber se vai chover muito ou pouco é, até certo ponto, importante para garantir planejamento e evitar danos, como os que aconteceram em 2023. Mas a meteorologia já faz o que pode, e ela sempre estará suscetível a erros. O erro que não pode acontecer é o de planejamento político. Um município não pode mais ser abastecido sob as condições que o açude de lá possui. É preciso pensar em alternativas eficazes e mudar de uma vez esse cenário.

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