A generosidade de 15 famílias, aliada ao trabalho de acolhimento do Hospital Regional do Sertão Central (HRSC), unidade da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) em Quixeramobim, permitiu a doação de 52 órgãos em apenas dez meses. O volume alcançado de janeiro a outubro de 2026 já é superior ao acumulado dos cinco anos anteriores somados (49 órgãos), evidenciando o avanço na identificação de potenciais doadores e no respeito ao desejo das famílias.
Esse é o maior número de órgãos captados desde que a Equipe de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (e-DOT) começou a atuar no HRSC, em 2019. “Este ano, com a casa e os fluxos mais organizados e a equipe ainda mais capacitada para os procedimentos e aplicação dos protocolos, temos conseguido os resultados que a gente queria”, explica o médico e coordenador da e-DOT do HRSC, André de Gois Rocha.
A unidade ainda alcançou outras marcas históricas em 2026, como a primeira captação de pulmão, um procedimento inédito no Ceará fora da capital, e ainda três captações de órgãos e sete notificações de potenciais doadores em um único mês, demonstrando o avanço na identificação de possíveis doadores e na organização dos processos de doação.
Os resultados expressivos são alcançados por um grande trabalho logístico, como pontua o médico André de Gois. “Desde a busca ativa, passando pelos protocolos, os processos, até o acolhimento familiar na possibilidade de encontrar um doador, é tudo um grande desafio”, destaca.
Cada segundo é crucial para quem está à espera de um órgão, o que torna o tempo um fator decisivo. O HRSC está geograficamente no centro do sertão cearense, o que implica no uso de helicópteros para o transporte dos órgãos, um trabalho feito em parceria com a Sesa e a Polícia Militar.
“Alguns órgãos dependem de um tempo específico para serem transplantados. O coração, por exemplo, deve ser implantado idealmente com menos de duas horas de isquemia. Por isso, o helicóptero entra como um apoio determinante para garantir que o receptor receba o órgão nas melhores condições possíveis”, explica o médico.
Quando o protocolo de Morte Encefálica (ME) é fechado, é a equipe da e-DOT que passa a atuar para conduzir a conversa com a família sobre a doação, um trabalho sensível feito com psicólogos, assistentes sociais, médicos e enfermeiros, e que segue etapas: primeiro, a equipe explica o diagnóstico de ME e abre espaço para que os familiares expressem o que sentem. Só após garantir que o diagnóstico foi compreendido é que apresentam a possibilidade da doação. O tempo e a decisão da família são respeitados em todo o processo.
“Nosso papel é oferecer essa escolha à família. A doação é um ato de solidariedade, que transforma a dor da perda em esperança para quem espera por um transplante. É um momento muito delicado, mas muitos encontram na decisão de doar um conforto, por saber que puderam ajudar outras pessoas”, afirma Karoline Caetano, enfermeira da e-DOT.
