Senador Pompeu teve desmatamento de uma área equivalente a 22 mil campos de futebol, aponta estudo

De acordo com o Inventário Florestal Nacional do Ceará, a cobertura florestal em 2009 era de aproximadamente 8,5 milhões de hectares, o que equivale a 57% do território, inventário publicado pelo Serviço Florestal Brasileiro do Ministério do Meio Ambiente divulgado no inicio deste ano de 2017.

A partir de imagens de sensores de satélite Landsat TM 5 e OLI 8, obtidos junto ao banco de dados da NASA, foi elaborado um trabalho na qual foi empregado uma equação desenvolvida pela equipe da Embrapa de Pernambuco, objetivando estimar o impacto do desmatamento entre os anos de 1986 e 2016 (30 anos) ao longo de toda a área do município de Senador Pompeu e sua consequência no assoreamento da barragem do Patu. Os resultados foram apresentados no “V Fórum das Águas”, evento de autoria da vereadora Lúcia Aquino, que aconteceu na Câmara municipal de Senador Pompeu no dia 05 de junho de 2017, dia Internacional do Meio Ambiente, segue abaixo parte dos dados.

Os resultados são preocupantes, carecendo de uma urgente intervenção por parte do poder público municipal, órgãos ambientais, a exemplo da Semace, Ministério Público Estadual e sociedade como o todo.

As regiões do município de Senador Pompeu que mais sofreram impactos com o desmatamento foram coincidentemente as que banham os rios e riachos tributários das nascentes da barragem do Patu, próximo a serra de Pedra Branca, os distritos mais atingidos foram: o Km12, Queimados, Km 20, Km 29, Lagoa Nova e São Joaquim, além de suas imediações.

A barragem do Patu foi inaugurada em 1989, reservatório jovem que abastece a população local e algumas comunidades de Quixeramobim. Ainda no mês de setembro de 2014, a COGERH realizou a batimetria afim de quantificar o aterramento do Patu, e com apenas 17% de sua capacidade de armazenamento, foi constatado à época que a mesma se encontrava bastante assoreada (aterrada), aproximadamente 9 milhões de m3 de terra. Para se ter ideia da quantidade de terra acumulada no seu leito em apenas 28 anos, seriam necessários mais de 1.000.000 de caçambas trucadas para retirar tanta terra, perdendo assim sua capacidade de armazenamento inicial de água que era de 71.829.000m³. Os dados da Cogerh e Cagece apontam que no mais tardar no mês de novembro deste ano a população do município de Senador Pompeu ficará sem água nas torneiras. Portanto, o desmatamento tem sido o maior vilão, responsável por tanta terra carreada e erodida para seu leito.

Quanto ao desmatamento, o município de Senador Pompeu não é exceção, este comportamento é evidenciado em todos Estado do Ceará, principalmente após este longo período de estiagem que nos assola. Portanto, o desmatamento indiscriminado sem sombra de dúvidas tem sido o principal responsável pelo assoreamento dos reservatórios do estado do Ceará, e, portanto redução da capacidade de armazenamento de água, o Estado do Ceará deverá proceder a batimetria de seus reservatórios quando voltar a regularidade das chuvas, afim de rever sua capacidade de armazenamento, ferramenta indispensável para planejamentos do uso múltiplo futuro. Toda ação tem uma reação, a sociedade que pouco preservou as florestas, agora pagam um preço muito elevado.

O estudo aponta que houve uma redução de uma área equivalente a 22.000 campos de futebol (22% do território do município), na qual tanto a caatinga estrito senso conservada quanto a mata ciliar foram convertidas em solo exposto, roçados, pastos e capueira, durante um período de apenas 30 anos no município de Senador Pompeu.

O mais grave é que apenas 2% da área superficial do município de Senador Pompeu contam com matas ciliares preservadas ao longo dos rios e riachos no ano de 2016, valores bem abaixo do que representavam os 23% em 1986. Portanto, o assoreamento da barragem e sua consequente capacidade de armazenamento foram comprometida pelo desmatamento das matas virgens em sua nascente.

No entanto, nem tudo foi tão negativo, comportamento contrário foi observado na área de Preservação Permanente (APP) com mata ciliar do rio Banabuiú em Senador Pompeu, constatando-se uma recuperação de aproximadamente 250 hectares com matas em apenas 30 anos (equivalente 250 campos de futebol), portanto contando atualmente com uma área de APP com 66% de matas ciliares conservadas ao longo do trecho de 25 km do município de Senador Pompeu.

A intervenção do Ministério Público Estadual local, ao longo destes últimos anos, no tocante principalmente a proibição do cercamento e roçados na calha e margens do rio, foram as principais causas desta recuperação da floresta. Torna-se urgente a adoção de campanhas e políticas públicas no sentido de educação ambiental junto as associações, residências, escolas e sociedade civil em geral, principalmente nas regiões mais afetadas pelo desmatamento, evitando assim o processo de desertificação; além das políticas preventivas, torna-se importante o incentivo a práticas de recuperação das matas ciliares e APPs, além de ações em parceria com os órgãos ambientais e Ministério Público Estadual no sentido de fiscalizar e coibir atividades de desmatamentos ilegais.

O período de seca severa (2011-2015) também contribuiu para a redução das florestas conservadas, pois em época de crise hídrica, os produtos da caatinga: a lenha, estaca, carvão, torna-se a principal fonte de complementação de renda das famílias rurais.

Deodato Nascimento Aquino especial para o portal Revista Central

Sobre o autor_

Técnico em Agropecuária pela Escola Agrotécnica Federal de Iguatu-CE (1996-1998). Possui o Título de Engenheiro Agrônomo pela Universidade Federal da Paraíba (2001 – 2005). Mestrado (MSc.) em Agronomia ( Irrigação e Drenagem) pela Universidade Federal do Ceará (2006 – 2007) atuando na Linha de Pesquisa: Utilização de Sistemas de Informações Geográficas em Manejo de Bacias Hidrográficas do Semiárido Nordestino. Perito Federal Agrário (Engenheiro Agrônomo) do INCRA-SR(24) Piauí (2007 – atualmente). Doutor em Engenharia Agrícola na Universidade Federal do Ceará (UFC) área de concentração: Manejo de Bacias Hidrográficas no Semiárido (2012 – 2015). Período de Doutorado Sanduíche no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) – (2014).