Coluna Amadeu Filho: Radialista Sinval Carlos tem dois grandes amores – o rádio e a propaganda de rua

Voz sonora, muito bonita e para qualquer tipo de locução, seja no rádio ou no carro de som. Uma das mais belas vozes da radiofonia quixadaense e uma das maiores audiências já conquistadas perante o grande público ouvinte. Mas, no auge do sucesso, Sinval Carlos decidiu, em determinado momento, a não apresentar mais programas. Continuaria, entretanto, em uma das atividades da qual começaria muito jovem, a propaganda de rua, ou seja, a publicidade em carro de som. De nada adiantou os apelos dos seus fiéis ouvintes para continuar apresentando seus programas na pioneira Rádio Uirapuru(hoje, Monólitos).

Ele tentou explicar a todos que precisaria de mais tempo, com o objetivo de atender as empresas e pessoas que o procuravam para divulgar seus produtos ou eventos. Os que gostam do rádio não esquecem, em especial, o programa “Ídolos do povo” de estilo “brega” apresentado por ele, no período da tarde, e que tocava canções, na verdade, adoradas pelos quixadaenses e em todo o Nordeste brasileiro. A audiência chegou a surpreender o proprietário da Uirapuru, José Pessoa de Araújo, que tentou convencer o radialista a se transferir para Fortaleza, o que nunca aconteceu. O programa criava os sucessos e o disco que tocava no programa, fazia com que as pessoas corressem até a loja “Cantinho dos Discos”, comandada pelo Sousa e assim garantirem o seu vinil. Naqueles calmos anos 80, os donos dos bares e restaurantes, colocavam as caixas de som na calçada e a sintonia no programa era a certeza de boas doses de cachaça, whisky  e outras bebidas que ,com certeza, tinham suas vendas aumentadas. E quando o apresentador, visitava um desses espaços, era uma verdadeira tietagem.

Sinval Carlos e a casa onde ficavam os estúdios da Uirapuru-anos 80

Com o objetivo de criar um clima de interação com os ouvintes, o popular comunicador criou o “Clube dos Birinaites” que congregava os amantes de Baco. Tinha até uma carteirinha. É tudo verdade! Se faz necessário destacar que, além do bom profissional, Sinval Carlos sempre foi uma pessoa muito atenciosa para com todos. versátil, apresentou ainda programas que divulgavam os ritmos nordestinos como “Forró na Casa Grande”, pela manhã e a tarde. Era o tempo das cartas e o querido radialista se tornou o campeão no recebimento deste poético meio de comunicação. Na verdade, eram os “Emails” do passado. “Adorava receber aquelas cartas, tinham um sabor especial. Não era só pedindo músicas, mas, em alguns casos, pediam para conhecê-lo, pessoalmente. Com certeza, os carteiros também eram responsáveis pelo sucesso dos programas. Também em seus programas, aconteciam momentos de solidariedade e algumas famílias foram atendidas nas campanhas realizadas junto ao público.

Aos domingos, Sinval inovou e apresentou um programa com a apresentação de artistas locais, de diversos estilos, como cantadores, emboladores, sanfoneiros, contadores de piadas, calouros. O, hoje consagrado, Dom Ratinho, ainda muito criancinha, começou naquele momento.

Foi o apresentador de uma das maiores audiências da emissora, o excelente programa “Nelson Sempre Nelson”, ainda hoje, na memória dos ouvintes. Faz questão de dividir o sucesso dos seus programas com os operadores de áudio, o Teixeirinha (bico doce), Tarcísio(besouro verde), Chico(Pernalonga), Ana Maria, Viana Vieira, Alexandre Magno, Teixeira Filho(Dudé) e outros. Uma de suas grandes saudades da inesquecível Uirapuru foi motivada pela partida da bondosa senhora, a Barbosa, responsável pela cantina e, na palavra dos funcionários, a rainha do café.

Como nada é eterno, Sinval decidiu não mais apresentar programas no rádio, mesmo com o apelo dos ouvintes para que continuasse. Agora, então, poderia se dedicar a outra grande paixão que era a propaganda de rua. Na verdade, começou muito jovem nesta atividade e pela seriedade com que encarava o trabalho, logo conquistou a preferência das empresas e das pessoas que o procuravam para os mais diversos tipos de divulgação. Começou na publicidade como locutor de porta, tendo prestado serviço as “Casas Pernambucanas”, numa indicação do irmão Nivaldo que era funcionário da loja. Na parte da manhã, fazia a propaganda na própria loja, mas, à tarde, ganhava as calmas ruas da cidade, ali pelos meados dos anos 60, num carro de sua propriedade. Um detalhe é que, quando não estava fazendo a propaganda, exercia o papel de empacotador da loja.

O jovem e dedicado locutor chamou a atenção de outras lojas que logo o requisitaram para divulgar seus produtos como os “Armazém Humaitá”, cujo gerente era o senhor Geraldo. Também foi o divulgador do comerciante José Abílio e de outros pontos comerciais. Deu um toque profissional a sua atividade, montando em sua residência, um bem equipado estúdio de gravações. Sinval Carlos já não estava dando conta de tanto trabalho, afinal de contas, a cidade crescia. Foi aí que surgiu o carro de som de Carmélio Queiroz e assim, durante muitos anos, os dois atendiam as necessidades da divulgação do comércio e indústria da terra dos monólitos. Mais que tudo, foram grandes amigos e sempre trabalharam em perfeita sintonia.

Na sua trajetória, aconteceram muitas situações interessantes, como por exemplo, o fato de uma carroça quase ter destruído o seu veículo de trabalho. Sinval, apenas se saiu com esta:” Foi um carroceiro, um homem trabalhador e não fez por mal!”. Foi convidado pelo mestre Adolfo para trabalharem juntos e tal aconteceu, durante alguns anos. O mestre possuía uma caminhoneta com cabine de madeira, o motorista era o Luisinho Belo e ele, o locutor que soltava a voz, com um fundo musical, comandado por Adolfo, manejando um velho toca discos e fazendo uso de velhos discos de cera. Vez em quanto, um se quebrava, lembra, acompanhado de um gostoso sorriso. Mas, isso só era possível com o carro parado. Com tantos clientes para atender, teve que convidar alguns amigos para ajudá-lo e assim, Evilásio Costa e Teixeirinha(bico doce) começaram a fazer parte da equipe de publicidade. Além de radialista e publicitário, foi também técnico de telefone da Prefeitura, quando foi implantado o sistema de telefonia distrital. Mas, faz questão de deixar claro, que o rádio e a publicidade sempre foram(e serão) suas duas grandes paixões. Sinval Carlos é filho de Luis Carlos(funcionário da Refesa) e da doce Cecília e irmão de Carlos Bezerra(foi goleiro em várias equipes da cidade); Francisco Nivaldo Carlos(grande craque de nosso passado) e Maria Dalva.

Hoje, essas duas atividades são doces lembranças que o tempo jamais apagará. A sua maior alegria, ao lembrar daqueles anos, é o fato de nunca ter deixado de divulgar as lojas e as pessoas que utilizavam seus serviços, chovesse ou fizesse sol. Sinval Carlos é um exemplo para a nova geração de locutores e publicitários, pois fez destas profissões, um canto de amor à vida. A Rádio Uirapuru(hoje, Monólitos) marcou a vida de muitos quixadaenses e lembrar dos programas apresentados por este querido cidadão é uma saudade prá lá de gostosa. Bom caráter, amigo, sempre terá o carinho dos ouvintes de rádio e dos amigos que são em grande número.

Com certeza, este homem do rádio e da publicidade, ajudou a escrever uma página da história da comunicação em nossa terra. Por isso, sempre recebe em sua casa, jovens estudantes e pessoas interessadas em saber como tais atividades aconteciam em nossa bela Quixadá. Não há como negar, Sinval Carlos teve(e tem) dois grandes amores: O rádio e a propaganda de rua.

________________autor

Amadeu Filho
Colaborador da RC
Colunista
Radialista Profissional