Coluna Amadeu Filho: O Natal chegou e trouxe com ele saudades de um Quixadá alegre e cheio de paz

Sentimos uma grande saudade daqueles dias em que o Natal era mais puro e o aspecto material não estava tão presente como acontece nos dias de hoje. Com certeza, é grande a saudade que sentimos daqueles natais cheios de uma alegria verdadeira, de uma santa bondade por parte das pessoas e parecia até que a maldade humana desaparecia por completo dando lugar a uma candura que transformava o coração de todos que se faziam crianças. Então, como eram os natais na Terra dos Monólitos naquele passado já bem distante? Tentarei fotografar um pouco daquele período para os que acompanham com imensa generosidade meus textos que são produzidos pelo coração.

Advirto, no entanto, que muitos detalhes deixarão de ser destacados pelo fato da minha memória não está bem legal como há alguns anos atrás. Começo falando que as canções de natal invadiam a bela Quixadá e o som da harpa de Luis Bordon saía da “Pop Discos” e tomava as ruas. Nesta loja, a simpática proprietária Lúcia atendia a todos com um sorriso natalino. As calmas ruas de Quixadá se enchiam de crianças e adultos e todos conviviam como se fossem de uma mesma família. Muitos pegavam o dinheiro que juntaram durante todo o ano para comprar uma roupa nova na loja de Zeque Roque que com sua alegria rotineira contagiava a todos. Lembro que passei muitos meses vendendo revistas para o senhor José da Páscoa com o objetivo de quando chegar o natal comprar uma calça Faroeste e um Kichute na tradicional Casa Olinda. Quando não era possível efetuar a compra mandava o icônico sapateiro Padinho pintar um velho sapato que ganhei de presente de minhas santas irmãs gêmeas(lindas), a Conceição e a Socorro Lessa.

Todos queriam receber o menino Jesus bem arrumado e quem não podia comprar um relógio novo mandava consertar o seu no Paulo Ourives que deixava o bicho bem novinho. Pentes, espelhinhos e outras lembrancinhas eram disputadas na loja do senhor Osvaldo e todos eram bem atendidos com aquela simpatia característica do jovem Paulo Roberto. Muitos pediam um emprego no ano novo que se aproximava ao menino Jesus e para aumentar os conhecimentos faziam a matrícula na escola de datilografia de Dona Minervina. Muitas famílias compareciam nas lojas de brinquedos e  o produto mais simples e barato se tornava o mais valioso devido ao clima natalino. Os brinquedos da loja de dona Zélia entusiasmava a todos e nos outros pontos comerciais também era grande a presença daqueles que compravam de acordo com suas posses. Na banca de revistas do Guaracy Fernandes as pessoas adquiriam os mágicos cartões de natal para serem enviados aos amigos e parentes distantes.

Na Cobal, as famílias pegavam os produtos para a aguardada ceia de natal. Por falar nisso, o colunista está um pouco triste pois até agora não chegou nenhum cartão me desejando feliz natal. No meu caso, que graça tem abrir um cartão de natal no computador e receber, quem sabe, um indesejado vírus?  As lapinhas que são o verdadeiro símbolo do natal estavam presentes não só nas igrejas mas nas residências e de uma nunca conseguimos esquecer. Foi aquela montada pela inesquecível senhora Vilanir e que durante muitos anos atraiu a atenção dos católicos e as visitas aconteciam durante todo o dia. O simpáticos Sinval Carlos e Enir(irmã de Vilanir) recebiam a todos com muita alegria. Chegando à noite, toda a família comparecia a missa para pedir a proteção dos céus.

Os mais jovens adoravam a missa celebrada pelo padre Bezerra pois era bem mais curta. Os sermões mais apreciados eram do bondoso e culto Padre Vicente. Na radiadora do mestre Adolfo uma canção alertava que “felicidade é brinquedo que não tem”. O parque Brasil que ficou na memória dos quixadaenses era a explosão de uma contagiante alegria com gente da cidade e do sertão. A praça Dr. Revy(hoje, José Linhares da Páscoa) recebia grande número de quixadaenses da cidade e da zona rural. Aqueles que não sabiam se divertir iam dar um passeio no camburão da polícia que diziam bastar dar umas voltas pela cidade, o cara dormia e aí iam deixar em casa.

Alguns começavam a louvar o deus Baco bem cedo da manhã no ponto comercial chamado “Cova da Onça”. Ao cair da tarde, começava o movimento no bar do simpático Apulco. A segurança era feita por um fusquinha de cor preta que era chamado de “Pretinho”. Mulheres que saíam das missas e ainda portavam o véu no rosto gritavam em alto e bom som “Pecado, é o fim do mundo!” Isso acontecia quando a Teresa doida passava completamente pelada nas calmas ruas de Quixadá. Algumas vezes, percebíamos gente correndo como se estivessem fugindo de algum perigo. Não, não era treinando para a corrida de São Silvestre e sim, fugindo das pedradas de Pedro Doido, Augusto e das caretas do Olho de Bila e do Bom Legal. O querido Almeidinha sabia e parabenizava aqueles que nasceram no mesmo dia do menino Jesus. As praças ficavam lotadas de caminhões vindo de todos os distritos. Jovens enamorados davam um pulinho na sorveteria do Nivaldo onde o atencioso Geraldo atendia a todos com muita alegria. Os picolés preparados pelo Almir tinham aquele gostinho de quero mais.Á meia noite, uma pausa nas festas para a tradicional missa do galo e as famílias vinham, às vezes, de muito longe sem jamais serem incomodadas.

Meu pai, o Amadeu do velho mercado, afirmava que a missa do galo ganhou este nome porque um desses machos da galinha teria cantado na noite em que Jesus nasceu. Depois da celebração, todos voltavam para casa muito felizes e as crianças cuidavam de ir dormir na doce espera do presente do bom velhinho. Mas, as festas continuavam por toda a noite nas barracas de palha próximas a rodoviária e em outros locais da terra dos monólitos. É bom lembrar que todos queriam enfeitar suas casas e cuidavam também da parte de higiene e o Pé de Aço era figura requisitada para a limpeza das fossas. Lembro que ainda cedo da noite, a banda regida pelo maestro Zé Pretinho alegrava a todos com canções marcantes do natal. No mês de dezembro, o açude do Cedro era bastante visitado e era uma das opções de lazer dos quixadaenses e dos que vinham de outras cidades. Naqueles inesquecíveis anos era costume de muita gente ir até o sítio da Lilinha onde as irmãs Baviera, Elba, Itamar, Robéria, Maria e Maura recebiam a todos com uma alegria divina. E quase todos subiam nos pés de groselhas no quintal da casa da professora Baviera e ali faziam a festa saboreando aquela gostosa frutinha. Os que pretendiam desejar um feliz natal aos que se encontravam distante faziam uso do telefone numa cabine da “ECETEL”. Tudo isso passou, é claro! Mas é NATAL e esta abençoada festa da cristandade está dentro de nós. Vamos enfeitar nossa casa, nosso ambiente de trabalho, reunir a família e amigos para receber o menino Jesus. É nele que encontraremos a paz que tanto buscamos.

É nele que haveremos de encontrar um novo tempo de alegria e paz para a cidade que tanto amamos. Não foi ele que deu a vida por nós? Será que existe uma prova de amor maior do que esta? Será que alguém nos ama tanto o quanto Jesus nos amou? Seja bem vindo, MENINO JESUS, pois Quixadá e todo mundo precisa de tuas lições de amor. Esta é minha última coluna do ano e desejo a todos brechadores de minha um feliz natal e um maravilhoso 2018. Sim, para terminar, não esqueça meu cartão de natal. Muitas felicidades, amigos. O MENINO JESUS está chegando.

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Colunista

Amadeu Filho
Colaborador da RC
Colunista
Radialista Profissional