Coluna Amadeu Filho: o desabafo de uma cachorrinha abandonada da Terra dos Monólitos

Hey moço, toca aqui na minha patinha! Me leve com você! Não precisa ter medo! Estou assim desfigurado, faminto, com frio, porque fui jogado nas ruas com meus amiguinhos! Não estou doente, não! Não sei mesmo porque fizeram isso conosco? O moço falou que lugar de cachorro era na rua e não em centros especiais. Olha, percebi que ele nos soltou para as ruas contra a sua vontade, pois percebi lágrimas rolarem em seu rosto. Quem o obrigou a fazer isso?  Fico pensando nos meus filhotes e das outras mamães cachorrinhas que não têm para onde ir, pois não existem órgãos que nos recebam.

Moço, esta é a cidade de Jesus Maria José e por que tanta gente mostra indiferença para com o nosso abandono? Sabe, dia desses, uma senhora bonita e elegante não permitiu que uma criança (a quem tanto amamos) se aproximasse de nós! A minha vizinha da calçada, onde dormimos, certa vez ouviu alguém falar assim: “Vamos deixar a Brigite no hotelzinho das cachorras, pois vamos viajar!” Me impressiona muito o fato de nos descartarem como se fôssemos objetos! Não, seu moço, não comece a chorar, ainda há tanta gente boa nesta terra dos monólitos! É assim que vocês humanos chamam, não é? Ainda tem tantas pessoas que se lembram de nós, sabe? Tem jovens abençoados que conseguem alimentos, nos levam para casa, tentam arranjar um lar para nós!

Deixa eu te contar: Tem um padre lá no Alto do São Francisco que reúne a juventude e consegue alimentos para diminuir nosso sofrimento. Deixa te contar outra: Tem um pastor, bem jovem, tão amigo, ele depois do culto alimenta meus irmãos em vários pontos da cidade. E tem uma gente linda, parece que serão doutores, que até remédios leva pra nós e nos dá umas vacinas. Não ria de mim, mas às vezes tenho medo daquelas agulhas! Tens uns homens com uma farda linda da polícia que são tão bons e até brincam com a gente. Olha, teve um deles que me levou para passear com seus cachorros. Sabe de uma coisa, a ausência que sentimos mesmo é dos homens que cuidam de nossa cidade. Sei que vocês humanos são organizados(mesmo?) e tem aqueles responsáveis pela organização na vida de uma cidade.

Estes nunca deram às caras, pensem que nós somos lixos, moço! Moço, me desculpe, tô começando a chorar, lembrando que muitos de nós estamos doentes, abandonados, maltratados! Olha, o Senhor conhece algum desses homens que administram esta cidade? Vai lá, fala para eles que não somos objetos e , assim como todo vivente, somos filhos de um mesmo pai? Implore para eles arranjarem um cantinho para cuidarem de nós! Tem alguns que nos tratam mal e falam que estamos com fungos, sarnas e bactérias. Ora, se tem esses casos não é por culpa nossa e sim do abandono a que somos relegados. Tenho uma amiga cachorra chamada Beleza que falou ser crime abandonar todos os animais. Então, se é assim, cadê nossas autoridades? Porque não obrigam a nos levar para um lugar onde nos acolham. Moço, tenho certeza que meus colegas que vivem nas casas dessas autoridades tem vida de rei. Quem dera eu, tomar aqueles banhos, correr com as crianças, passear naqueles carrões.

Olha, vou te contar um segredo porque confio em você, mas fica só entre nós, senão vão dizer que estou caducando, sou uma cachorra velha. Uma madrugada apareceu alguém com um olhar tão bonito, tão manso, sorriso diferente e sentou-se perto da gente e corremos para seu colo. Depois de alimentar a todos nós, falou: “Não fiquem assim tão tristes, pois quando estive aqui, amei a todos, dei minha vida e também me maltrataram”. Tão manso quanto chegou, se despediu da gente. Para lhe dar proteção o acompanhamos até um belo açude, onde desapareceu. Foi Jesus, foi sim, tenho certeza, todos nós vimos, todos nós.  Aperte a minha patinha, amigão! Obrigado pela atenção, meus bebês estão chamando com fome!

 Obrigado e não esqueça de pedir aos homens que comandam nossa bela cidade para lembrarem da gente e pode ter certeza de que, apesar de tudo, nós os amamos! Nós cachorros somos os melhores amigos das pessoas!

Este texto tão simples, fabricado pelo português do coração, não é literatura fantástica. Não sou escritor e nem pretendo tal. Não é história fantástica, mas apenas palavras e uma forma que encontrei para expressar minha profunda revolta e da maioria dos quixadaenses com relação ao desprezo com nossos irmãos de criação que são jogados nas ruas como simples objetos. Imaginei uma cachorrinha pedindo nosso socorro e querendo nos mostrar todo o seu amor por nós.

Autor

Amadeu Filho
Colaborador da RC
Colunista
Radialista Profissional