Coluna Amadeu Filho: Manuel Holanda, um “anjo da noite” que nos protegia em Quixadá

Sr. Manuel Holanda era guarda noturno em Quixadá (foto: Amadeu Filho/RC)

Acreditamos que a nossa história se enriquece com o registro do cotidiano de alguns profissionais que nem sempre estão presentes em livros, jornais ou outras publicações. Eles, sem dúvida, fazem parte da memória de uma cidade e suas atuações merecem registros e se faz necessário documentar o tempo e o espaço por eles ocupados.  Através de suas narrativas conheceremos outras facetas da cidade em que vivemos. Naquele Quixadá ingênuo, a figura do guarda-noturno enfeitava as nossas praças e parece que ainda ouvimos o apito que nos dava a certeza de que podíamos dormir e sonhar com coisas bonitas da vida. E ele será que também sonhava ou apenas se preocupava com nosso bem estar? Com a ajuda de amigos(minha memória não está muito legal por causa da labirintite) fisguei alguns nomes destes simpáticos trabalhadores que hoje estão aposentados e alguns já faleceram.

Estar sempre ao lado da família é sua alegria maior (foto: arquivo família)

Nas nossas principais praças, ali pelos anos 60, 70, 80, encontrávamos o Manoel Holanda, Kim, Paulo Cotó, Luis Elói, João Pedro, Fausto, Carlinhos, Mundô, Leão, Marcola, Zé Mauro, Gildo, João Guarda, dentre muitos outros. Como não seria possível saber um pouco da atuação de cada um, visitamos o Senhor Manuel Holanda Cavalcante que nos recebeu, amavelmente, em sua residência na rua Juvêncio Alves. Hoje, aos 85 anos de idade, é possuidor de uma memória incrível e me fez logo um desafio: “Pode perguntar, meu cérebro tá uma beleza!” Foi logo informando que só trabalhou na Praça José de Barros e durante 25 anos, só faltando nos dias em que se encontrava doente. Começou no ano de 1964, no governo de José Okka Baquit e exerceu sua atividade ainda nas administrações de José Linhares da Páscoa (o mais atencioso com os funcionários, segundo ele), José Everardo Silveira(o médico de todas as famílias dos funcionários), Azziz Okka Baquit(o amigo das horas incertas, ressalta) e Renato de Araújo Caneiro.  Faz questão de lembrar e nos contou com emoção,  que seus filhos adoeceram e não tinha condições de lhes dar um atendimento médico adequado e foi falar com José Baquit que prontamente, custeou o tratamento dos meninos.

Para Manuel, os netos são os novos filhos

Naqueles primeiros anos da década de 60(século passado), os quixadaenses só contavam  com a energia elétrica até a meia noite, fornecida por um grupo gerador com a potência de 450 KVA, adquirido no governo de Zé Baquit  que autorizou o então secretário de energia, Dr. João Forte da Mota a adquirir o equipamento em Campina Grande que dispunha de vários geradores à venda. Por alguns anos, Manuel desempenhou seu trabalho em completa escuridão tendo apenas a lhe orientar uma lanterna. Lembra que, algumas vezes, o motor funcionava até mais tarde por motivo da doença de um quixadaense ilustre. Sua companhia, naquelas noites negras  eram as estrelas, funcionárias celestiais e a lua que guardava as poucas horas de sono daquele bom trabalhador. Naqueles anos, imperava o sossego e jamais alguém o agrediu nem fisicamente e nem com palavras. Quase todas as pessoas que passavam na praça o conheciam e o tinham como um anjo noturno que lhes protegia durante toda à noite. Gosta de lembrar das festas de fim de ano, os natais na praça, as novenas de maio, os carnavais quando a alegria tomava conta de todos. Para aquelas pessoas que passavam pela praça, a maldade parecia não existir, pois nunca presenciou atos de violência.

O pai Abdoral Holanda lhe ensinou muitas lições

Sem nunca ter cursado uma universidade, muitas vezes fez uso da psicanálise, pois consolava as angústias de muita gente que frequentavam aquela praça. Outras vezes, se passava como conselheiro amoroso buscando saídas para os casais de namorados que estavam brigados. Os meninos o tinham como uma espécie de titio muito querido. Manoel lembra, com ternura, dos seus amiguinhos, todos ainda nos verdes anos como filhos de João Pires, Elias Roque e de todos os outros, hoje, homens na idade adulta e exercendo diversas profissões.Apesar do olhar vigilante no que acontecia na praça, era possível uma conversa agradável com Luquinha, o seu filho Alexandre Magno, Amadeu do Velho Mercado (meu pai), senhor Oswaldo que passava bem cedinho para abrir a Casa Vitória. Jamais esqueceu da amizade com os carreteiros Possidônio, Bôboco, Chico Damião e outros que ao amanhecer do dia começavam a trabalhar.

No começo da noite, a praça era invadida por muitas famílias, em especial os mais jovens que ali compareciam para ouvir canções de amor na radiadora do Mestre Adolfo. Pouca se fala mas, quanta gente, namorou e até chegou à casar ouvindo aquelas singelas mensagens musicais na voz celestial de Luisa Adolfo. Com uma boa gargalhada lembra das prosas com o filósofo popular Laranjeiras que certa vez reclamou e lhe exigiu que plantasse tomate, pimentão, alface e outros tipos de verdura ali na praça o que evitaria as família comprarem esses produtos. Relata que uma das alegrias das crianças naqueles velhos tempos era o carrinho de pipoca de Juvenal (pai do Milton da banca). Ele fazia a alegria da gurizada. Além de ser o guardião da Praça José de Barros, fazia ronda em algumas casas comerciais como, por exemplo, “Casas Pernambucanas”; “Loja do Elias”, “Casa Vitória”; “O Boiadeiro”; “Cícero Bertoldo”, “Panificadora João Pires”, dentre outras.

Muitas vezes, era encarregado de acordar pessoas que precisavam viajar à Fortaleza com o objetivo de resolver algum problema. Como exemplo, lembra que durante muitos anos, acordava o comerciante Geraldo Bertoldo e o padre José Bezerra que veio a se tornar um de seus melhores amigos. O dinheirinho extra ajudava no sustento dos doze filhos, meus diamantes como os chama ainda nos dias de hoje. Manuel é natural de Senador Pompeu e veio para Quixadá ainda muito jovem, logo conquistando grandes amizades, pois além de realizar tarefas com honestidade, tratava a todos com muito respeito. Aprendeu muitas lições com os pais Abdoral Holanda e Ana Maria da Conceição que lhe pediram ter sempre Deus no coração e tratar todas as pessoas com muito carinho.

Parabéns para ele-Vemos na foto a sua querida Maria José

Casou-se com Maria José de Sousa, no ano de 1982 e sempre se refere a sua falecida esposa com muita dor e saudade. “Ela foi minha rainha, um anjo bom que Deus colocou em minha vida! Nunca esquecerei de sua alegria quando comprei nossa casinha com o dinheiro recebido ao final de longos anos de trabalho”, lembra. Como toda gente, nosso amigo também teve seus momentos de dor. Recorda e suas lágrimas limpam seus olhos ao lembrar do seu companheiro dos dias e da noite, o inseparável cachorro Bambalão que foi morto à bala por uma pessoa com coração de pedra. Bambalão foi meu amigo sincero, leal e nunca esquecerei dele. Mas Manuel também teve(e tem) muitos motivos para sorrir como o nascimento dos filhos e netos que se constituíram na sua grande alegria.

Não temos a pretensão de resgatar a memória do cotidiano quixadaense, mas apenas revelar um pouco da grandeza e beleza do trabalho desses honestos trabalhadores que, com certeza, escreveram bonitas páginas de nossa história. Quanto à mim, parece que ainda estou vendo o Manuel de capote preto, quepe, o porrete em uma das mãos, um apito na boca e sempre ao seu lado, o fiel   Bambalão.  Lembrar desta figura cheia de poesia é também ter de volta aquele Quixadá cheio de paz, alegria e amizade entre as pessoas. Ficaria muito feliz se você que é brechador de minha coluna, após ler um pouco da trajetória de Manoel Holanda lhe fizesse uma visita. Ele sorrirá como uma criança! Cecília Meireles estava certa ao chamá-los de “Os anjos da noite”.

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Autor

Amadeu Filho
Colaborador da RC
Colunista
Radialista Profissional