Coluna Amadeu Filho: Manuel Alexandrino – o barbeiro que conquistou o coração dos clientes e amigos da bela Quixadá

Manuel Barbeiro(Manuel Alexandrino)-amava a profissão de barbeiro (foto: arquivo da família)

Daquele Quixadá já bem distante, lembramos cheios de saudade àquelas figuras carregadas de poesia e portadoras de uma beleza própria e  magia certamente esculpidas pelo criador. Os barbeiros fizeram(e ainda fazem) parte da vida de muita gente. As lembranças dos barbeiros que atuavam em Quixadá e já foram chamados por Deus para outras missões, apertam o nosso peito de uma imensa saudade e nos trazem de volta aqueles velhos tempos carregados de lindas imagens como daqueles salões ocupados por trabalhadores com aquela bata branca, manejando com arte, tesouras, navalhas e sempre cheios de bondade e de um papo celestial.

Desses profissionais que não saem de nossa memória podemos destacar a figura de Manuel Alexandrino Guedes, popularmente conhecido como Manuel Barbeiro. Ainda sentimos a ardência daquelas laminadas para cima e para baixo pelas mãos deste trabalhador e figura muito benquista na terra dos monólitos. Quando saíamos da barbearia, éramos acariciados pelo vento e sentíamos a sensação de um bem estar indescritível. Ainda nos dias de hoje, corre uma lenda de que os clientes de Manuel Barbeiro ao saírem de seu salão eram vistos como os mais bonitos da cidade. O certo é que era respeitado como um grande profissional.

Era filho de Antonio Alexandrino Sobrinho e Elisabete Guedes da Silva e veio ao mundo em 27.10.1937, na comunidade de Riacho do Meio, próximo a localidade de Umarizeira, no caminho do município do Choró. Trabalhou na agricultura ao lado dos irmãos vivenciando aqueles anos de seca que sempre castigou o sertão cearense.  Conheceu sua esposa lá mesmo no Riacho do Meio, contraindo núpcias com a jovem Maria das Dores Costa Ribeiro em 6.11.1957.

O casal veio morar em Quixadá fugindo daquela terrível seca de 1958, precisamente no bairro do São João, onde nasceu sua primeira filha, Maria do Socorro. O primeiro local de trabalho, como barbeiro, foi no salão Abraão Baquit, onde trabalhou durante anos conquistando uma clientela fiel. O segundo filho do estimado casal, Flávio Guedes,  já nasceu em outra residência, agora na rua Rui Barbosa, entre o cemitério e a cadeia pública. O terceiro filho nasceu sob às bênçãos dos grandes poetas do mundo e trouxe mais alegrias aos familiares. Hudo, ainda na aurora da vida mostrava sua veia poética encantando familiares, professores e amigos. Manuel Barbeiro mesmo tendo sido criado no sertão, logo percebeu a necessidade de mandar os filhos para a escola e acertou em cheio, pois todos se tornaram grandes profissionais nas suas respectivas áreas.

Dona Dorinha, o netinho Paulo Henrique e Manuel (foto: arquivo da família)

Outro ponto a destacar foi a constante busca pelo estar de sua família, razão maior da sua existência. De sua bela biografia consta o fato de ter procurado aprimorar seus conhecimentos, frequentando a escola no período da noite, juntamente com a sua amada Dorinha, quando fizeram até a quarta série primária do Ginásio Waldemar Alcântara através do “Mobral“. Outra atividade que chegou a desempenhar foi o de músico por sugestão do professor Benício, então maestro da banda de música de Quixadá. O pai e os irmãos José, Luis e Raimundo, não se sabe ao certo, também direcionaram para a mesma profissão ocorrendo então, a união dos irmãos que em sociedade, fundaram o “Salão Alexandrino”, primeiramente localizado na Rua Epitácio Pessoa, depois com mudança para a Rua Irmãos Queiroz, em frente ao cartório do Senhor Lafayette.

No local de trabalho com seus colegas barbeiros (foto: arquivo da família)

Aos poucos, os irmãos foram se afastando da sociedade, permanecendo apenas o Manuel que buscou outros barbeiros para trabalharem no estabelecimento, juntando-se então aos profissionais e queridos amigos Ernandes, Raimundo e Nenzinho.

Nas décadas de 80 e 90(século passado) o local tornou-se um local de encontro de muitos filhos da terra dos monólitos que ali compareciam para conversar e debater os assuntos daquele momento. Com o passar dos anos Manuel foi convidado a ingressar na Maçonaria que lhe deu muitas alegrias e força para enfrentar algumas adversidades comuns a todos nós. Segundo nos relata o poeta Hudo, seu pai se sentia muito orgulhoso em pertencer a essa Sociedade. A Maçonaria o tornou um homem mais voltado para a solidariedade e mais amor para com as pessoas e tal é verdade que adotou seu quarto filho, Jaderson, o mais querido segundo dizia para familiares e amigos.

Durante a sua vida profissional seus clientes tornaram-se grandes amigos, como por exemplo, Eurípedes Pinheiro, Stélio Holanda, Olavo Capistrano, Dr. Durval Andrade, Helder Cortês, Lafayete, Albuquerque, Gilberto Falcão, Amadeu do velho mercado, Luquinha, Nilo Lopes, professor Will Holanda,dentre muitos outros.

Os problemas de saúde surgiram após o ano de 2000, especialmente os de natureza coronarianas, sendo necessárias colocações de pontes de safena. S. Dorinha, o seu anjo da guarda, também apresentou problemas de saúde com o surgimento de um câncer que o abalou bastante. Já sem condições físicas de comparecer ao local de trabalho necessitou deixar o “Salão Alexandrino”, sua segunda casa como afirmou diversas vezes. Como amava a profissão levou as ferramentas de trabalho para casa, onde atendeu durante algum tempo.

Manuel Barbeiro foi chamado por Deus em 16 de maio de 2012, deixando saudades aos familiares e amigos. Todas às vezes que passamos por uma barbearia, vemos uma navalha, uma velha tesoura, uma cadeira daquelas próprias deste espaço, lembramos da figura inesquecível de Manuel Barbeiro. Porque sempre levou a sério sua profissão e por ter tratado familiares, clientes e amigos com respeito e amizade, continua vivo na lembrança  dos filhos da terra dos monólitos.
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Colunista

Amadeu Filho
Colaborador da RC
Colunista
Radialista Profissional