Gestão de Quixeramobim usou redes sociais para priorizar propaganda institucional enquanto cidade passava por pico de Covid-19

Enquanto cidade vivia pico do Covid-19, redes sociais da gestão priorizavam ação institucional, em uma delas o prefeito faz selfie com garis (Foto: Reprodução/Facebook)

Quixeramobim: em meio à pandemia muitos municípios viram nas redes sociais uma importante aliada na estratégia de mobilizar a população em ações de prevenção sobre o coronavírus. Mas em Quixeramobim, durante o mês de julho, justo o pior mês em número de mortos e de positivados já registrado na cidade, a gestão resolveu utilizar as redes sociais para fazer propaganda das ações que desenvolveu.

O Portal Revista Central fez um levantamento de todas as postagens realizadas pela prefeitura de Quixeramobim no mês de julho. Foram, ao todo, 124 posts no perfil que a gestão mantém no Facebook. Nossa equipe analisou uma a uma o teor de cada material e constatou que apenas três delas diziam respeito a orientações e cuidados que a população deveria tomar com relação à prevenção do coronavírus. O cálculo não considerou o informe do boletim epidemiológico diário, já que se trata de uma política de transparência dos registros, o que é obrigação do município.

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Em live, Pavone disse que oposição usa números para fazer politicagem (Foto: reprodução)

No geral, durante o mês passado cerca de 40% das 124 postagens eram enfatizando ações e iniciativas que Clébio Pavone teria construído em Quixeramobim estando à frente da prefeitura. Foram 41 posts da campanha “Quixeramobim Cada Vez Melhor” e oito vídeos institucionais. Outras quatro postagens tinham relação com o coronavírus, mas não se caracterizam como orientação. A prefeitura mostrou dez vídeos de caráter educativo com diversos profissionais, mas nada de uma orientação forte o suficiente para sensibilizar o povo.

Em uma live que fez no fim da tarde desta quarta-feira (5), o prefeito de Quixeramobim indicou que os números dos mortos na pandemia estariam sendo explorados por grupos de oposição como forma de politicagem. “O momento não é de política, o momento não é de campanha, o momento é de combate a uma guerra, a um vírus que tem afetado muito as famílias de Quixeramobim”, disse Clébio Pavone. O recado dado pelo prefeito parece não ter sido compreendido pela equipe responsável pelo gerenciamento das mídias sociais da gestão. Nos dias mais turbulentos de julho, aqueles quando a cidade teve o maior número de mortos registrados em apenas 24 horas, as redes sociais da gestão faziam política institucional ao invés de alerta e prevenção.

Em seu perfil, o prefeito fez 19 post durante o mês de pico, 13 delas sobre ação institucional, onde chegou a se lançar pré-candidato

Em 13 de julho, dia em que a cidade pulou dos 34 para 37 mortos, a gestão enfatizava que 100% dos alunos da rede pública tinham recebido fardamento de forma gratuita. Já no dia 25, quando mais uma vez três pessoas faleceram de Covid-19, a prefeitura preferiu mostrar na internet que “concluiu a reforma da Ponte Metálica, equipamento tão importante para a história do município”. No dia 20 de julho, uma semana depois da primeira vez em que a cidade registrou três óbitos de uma só vez em um único dia, Clébio Pavone estampava as mídias sociais da prefeitura fazendo selfie com garis, e destacando que 100% da categoria estava fardada.

Clébio também usou o seu perfil para fazer publicidade institucional, entre s quais chegou a se lançar como pré-candidato a prefeito concorrendo à reeleição. Foram 19 postagens em julho, das quais 13 eram sobre ações da prefeitura. Somente nesta quarta-feira (5), foram seis postagens, incluindo a live. Os posts foram publicados às 15h36, dois de uma vez às 15h59, 16h30, 18h07 e 19h01. Coincidentemente, as postagens surgem depois da repercussão da matéria mostrada pelo portal Revista Central de que embora tenha mais de R$ 3 milhões em caixa, a prefeitura aplicou apenas pouco mais de meio milhão em ações de prevenção ao coronavírus.

Julho está sendo considerado o mês de pico do coronavírus em Quixeramobim e a situação na cidade a cada dia piora. Foram 26 mortes no mês passado e cinco outros óbitos já contabilizados nos cinco primeiros dias de agosto. O último boletim epidemiológico divulgado pela prefeitura, mostra que a cidade já tem 61 mortos no total e 1.502 casos confirmados. Outras 24 pessoas aguardam resultado e 976 tiveram alta clínica.