Tremor de terra, ventania, baixas temperaturas: afinal, que loucura foi essa no tempo do Ceará?

Clima chuvoso, mesmo após o fim do período de chuvas, chamou a atenção dos ceareneses (Foto: divulgação)

No Ceará, o fim do período de chuvas se encerra oficialmente em junho. A partir deste período o cearense está acostumado a ter de volta o sol sempre a pino. Mas na última semana, sobraram evidências para que uma onda de medo e de susto se espalhasse pelo estado por causa de fenômenos meteorológicos raros. Foram registros de ventania, baixas temperaturas e tremores de terra que como consequência, deixaram um rastro de destruição, temor e uma dúvida plantada na cabeça de muitos: que loucura foi essa no tempo?

Baixas temperaturas provocaram geada em Ibicuitinga, na zona rural (Foto: divulgação)

A sensação de estranheça acompanhou o cearense logo no início da semana. Passado mais de um mês do fim do período oficial de chuvas, que vai de fevereiro a maio no Ceará, o dia amanheceu com chuva em 63 municípios, a maior delas, por pouco não chega a 200 mm: foram 185 mm em São Gonçalo do Amarante. No dia seguinte, mais chuva e em mais municípios: foram 114 cidades banhadas pelas precipitações. Tanta água assim foi responsável por não apenas deixar o clima mais ameno, como também responsável por promover no dia seguinte uma onda de baixas temperaturas como poucas vezes vistas para o período.

Em Choró e Itatira foram registrados 19º nas primeiras horas da última terça-feira (7). Deputado Irapuan Pinheiro marcou 22º e todas as demais cidades, como Quixadá e Quixeramobim, marcaram 23º nos termômetros. Em algumas comunidades a sensação térmica ficava bem abaixo do que os índices marcavam. Em Pinheiros, zona rural de Ibicuitinga, os moradores chegaram até a registrar uma pequena camada de gelo formada pelo baixos graus térmicos sob folhagens.

Vento forte

Na região litorânea também houve fenômenos que intrigaram os moradores, mas desta vez com a presença de ventania. Em Camocim os ventos foram tão fortes que virou até notícia de TV. “Uma ventania forte registrada na tarde desta segunda-feira derrubou muros, árvores, portões e telhas de residências no município de Camocim, a 355 quilômetros de distância de Fortaleza”, dizia a reportagem. O fenômeno foi registrado no meio da tarde durando eternos 20 minutos, e quando passou deixou um rastro de prejuízos. Casas ficaram destelhadas, muros caíram e árvores foram arrancadas.

Ventania causou estragos em Camocim (Foto: Agência Miséria)

Houve quem relacionasse o fenômenos de Camocim com duas tempestades que atingiram a região Sul do Brasil. Na primeira delas, dez pessoas morreram em Santa Catarina naquela que é considerada a pior tragédia com ventos da história. E quando tudo parecia ter se acalmado, a terra tremeu em Chorozinho, sendo refletida também em Pacajús, ambos municípios da Região Metropolitana de Fortaleza. O tremor foi registrado pela Universidade do Rio Grande do Norte em 2.5 graus na Escala Richter, que vai de 0 a 9.

Esclarecimentos

Essa série de fenômenos até agora está intrigando os cearenses, embora alguns deles já conseguissem ser esclarecidos. Sobre as baixas temperaturas que provocou a camada de gelo em Ibicuitinga, a Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme) disse que “nessa época do ano, há uma queda na temperatura que, no Brasil, é mais sentida nas regiões Sul e Sudeste. No Nordeste, pela proximidade à Linha do Equador, a redução na temperatura é bem menor, mesmo assim, são sentidas pequenas variações”.

Meiry Sakamoto, gerente de meteorologia da Funceme pontou que além do fato de estarmos no período do inverno do hemisfério, outros fatores, como o registro de temperaturas mínimas extremas e maior perda radiativa ao longo da noite, devido a ausência de nuvens. “Assim, com maior perda radiativa, as temperaturas mínimas, que são aquelas registradas próximo às 6h da manhã, são mais baixas”.

O vento em Camocim pode ser considerado normal, já que está em uma região litorânea, mas os estragos registrados derrubam essa tese. A Funceme, no entanto, diz que não pode comentar o fenômeno porque não tem uma plataforma de monitoramento na cidade. Mas a sugestão levantada por moradores de que a ventania possuia ligação com os ventos fortes de Santa Catarina é infundada, de acordo com meteorologistas.

Em Chorozinho, tremor de terra assutou moradores

Tremor de terra: explicação histórica

Já sobre o tremor de terra em Chorozinho o Laboratório Sismográfico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabSis) considera como algo normal. Tese reforçada pelo professor de Geologia da Universidade Estadual do Ceará (UECE), João Silvio Dantas para quem o fenômeno não pode ser chamado de terremoto, mas sim de uma ressonância de um abalo sísmico. “O Ceará tem regiões propensas a esses abalos, principalmente na região Norte. Para se ter uma ideia, por ano, acontecem mais de mil abalos sísmicos. Então, é considerado normal”.

Tanto é normal que até entrou para a história. Há quase 40 anos a cidade de Pacajus, também na Região Metropolitana de Fortaleza, foi atingida pelo que foi considerado o maior tremor do Norte e Nordeste. Ocorrido em 1980, esse abalo sísmico chegou à magnitude de 5.2 graus na escala Richter.