Parque aquático, bufê e carros de luxo estão na lista de bens sequestrados de facções no Ceará

Bens apreendidos de criminosos em três anos no Ceará somam R$ 23 milhões — Foto: Divulgação

Uma casa de veraneio com parque aquático era anunciada como oportunidade de lazer na Praia da Caponga, em Cascavel, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Fotos em redes sociais anunciavam um espaço com piscinas, toboágua e chuveiros, além de varandas amplas e gramado, disponível para aluguel, em um dos destinos mais procurados no litoral cearense. No entanto, o local foi identificado pela Polícia Civil como investimento de uma organização criminosa e foi sequestrado pela Justiça.

O grupo em questão, desarticulado em dezembro de 2018 pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), era liderado por Antônio Fábio da Silva Araújo, o “Bim Araújo” ex-vereador de Pacatuba. Hoje, ele é denunciado por crimes de lavagem ou ocultação de bens e organização criminosa.

Há quase um ano, a Operação Proprietarius sequestrou 51 imóveis. Além do parque aquático, a lista incluía buffet, apartamentos, quitinetes, salas comerciais, terrenos em loteamentos, espaços para eventos, ótica, salão de beleza e autoescola. Também foram apreendidos 52 veículos, incluindo dois carros de luxo, e cinco contas bancárias foram bloqueadas.

Entre 2015 e 2018, a quadrilha teria movimentado R$ 23 milhões, segundo o delegado adjunto da Draco, Alisson Gomes. Tudo oriundo de empréstimos a juros (agiotagem) e lavagem de dinheiro em nome de laranjas, cujo o modo de agir é considerado “grosseiro” pela Polícia foi descoberto por meio de anotações em cadernos.

“O ‘Bim’ tinha pessoas que o auxiliavam, que também foram indiciadas e chegaram a ser presas temporariamente com ele, mas não tinham um esquema mais bem preparado”, lembra Gomes. Segundo ele, os envolvidos já foram denunciados pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) e respondem ao processo em liberdade.

A defesa de Bim Araújo, representada pelo advogado Kaio Castro, declarou que a investigação “aparenta ter tido base política” e que houve “gritante e fantasioso exagero” no tocante ao valor movimentado pelo acusado, uma vez que “dezenas de imóveis sequestrados não possuem sequer o valor de um carro popular”.

Castro alega que a acusação apenas realizou o somatório de patrimônios de Bim, sem diferenciar o que sobreveio de suas atividades como vereador ou empresário dos supostos empréstimos a juros. “Será demonstrado nos autos que não há que se falar em esquema criminoso, que todos os outros denunciados são apenas funcionários devidamente registrados”, afirma o advogado.

Trabalho aprofundado

“É um jogo de gato e rato.” A frase do delegado Paulo Cid Torres, diretor do Departamento de Recuperação de Ativos (DRA) da Polícia Civil, define as investigações para minar o poderio econômico de grupos criminosas que atuam no Ceará. Só nos dois últimos anos, mais de R$ 83 milhões em bens foram sequestrados das organizações, incluindo imóveis, automóveis e joias comprovadamente adquiridos com dinheiro do crime.

Conforme o delegado, “a forma mais fácil” que o criminoso encontra de desfrutar do patrimônio ilícito é através de imóveis e móveis, onde tentam lavar o dinheiro. Desta forma, um laboratório especializado já presta apoio sobre análises financeiras, bancárias e patrimoniais às investigações, tanto do Departamento quanto de outras delegacias. A atuação também abrange parcerias com o Ministério Público, o Poder Judiciário e outras instituições financeiras.

Várias investigações partem dos “laranjas”, que se agregam às organizações “para dificultar o rastreio do dinheiro”. “A gente foca neles porque pode ser que sua conta esteja sendo utilizada sem sua ciência, o que talvez seja um pouco menos comum, mas também pode estar sendo utilizada com a sua conivência”, detalha Torres.

Conversão para a Segurança

Após o sequestro, parte dos valores dos bens é revertido para o Fundo de Segurança Pública e Defesa Social, de acordo com o delegado geral da Polícia Civil, Marcus Rattacaso. O dinheiro é aplicado em melhorias estruturais das forças de Segurança Pública do Ceará.

Um dos usos mais representativos é o do helicóptero utilizado nos assassinatos dos líderes criminosos Rogério Jeremias de Simone, o ‘Gegê do Mangue’, e Fabiano Alves de Souza, o ‘Paca’, em fevereiro de 2018. Três meses depois, a aeronave se tornou parte da frota da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer).

“Prender é muito pouco. Quando se trata de uma organização criminosa estruturada, verticalizada, a gente entende que mais importante é desidratar esse dinheiro que alimenta o crime. Se eu não consigo capturar patrimônio, dentro de pouco tempo, vou ter pessoas que assumirão a função das pessoas que foram presas”, considera Rattacaso.

As fontes dos ilícitos passam principalmente pelo tráfico de drogas, mas inclui tráfico de armas e até assassinatos por encomenda. O dinheiro retroalimenta o sistema criminoso e também financia a “corrupção de agentes públicos que sejam peitados a praticar atos ilícitos”, conforme o delegado geral. Segundo Rattacaso, as quadrilhas também mantêm ligações com paraísos fiscais fora do Brasil na tentativa de regularizar os montantes.

Conteúdo: G1